“O menino que escrevia versos”: Mia Couto.

Introdução

Escolhi “dedicar” este trabalho ao conto: «O menino que fazia versos» de Mia Couto. De entre outras, optei por escolher esta história porque admiro a forma como o menino encara a vida, sonhando, pois como ele próprio diz, é o melhor que sabe fazer. “ O que melhor sei fazer, excelência, é sonhar.”

Outro motivo pelo qual escolhi este conto foi devido ao facto de o menino ser tão maturo e, principalmente, sensível, apesar de ter crescido num meio onde tal sensibilidade é encarada com enorme hostilidade: “ Houvesse que pagar por sobressalentes, não importava. O que urgia era por cobro àquela vergonha familiar.”

“Aquilo era coisa de estudos a mais, perigosos contágios, más companhias. Pois o rapaz, em vez de se lançar no esfrega-refrega com as meninas se acabrunhava nas penumbras e, pior ainda, escrevia versos”

Categorias da narrativa

Este conto tem como tema a incompreensão e, até a ignorância.

A incompreensão devido aos pais não entenderem necessidade do menino de sonhar e a ignorância porque confundiam o talento para a poesia com uma doença. “Ele escreve versos! Apontou o filho, como se entregasse criminoso na esquadra.”

Relativamente ao assunto, o autor apresenta-nos três personagens principais, o menino, o médico e a mãe do menino, que estão inter-ligados. A mãe do menino leva-o ao médico por achar que ele está doente e, por sua vez, o médico interna-o, não por motivos de saúde, mas por querer ouvir o que ia no coração da criança: “Hoje quem visita o consultório raramente encontra o médico. Manhãs e tardes ele se senta num recanto do quarto de internamento do menino. Quem passa pode escutar a voz pausada do filho do mecânico que vai lendo, verso a verso, o seu próprio coração.”

Acção

As sequências da acção deste conto encontram-se encadeadas, pois trata-se de um relato de uma única história, em torno de um problema específico: o menino que escrevia versos.

O conto apresenta uma sequência inicial, onde os pais preocupados levam o seu filho ao médico, por acharem que escrever versos é uma doença. O autor usa as frases “ o pai logo sentenciara: havia que tirar o miúdo da escola. Aquilo era coisa de estudos a mais, perigosos contágios, más companhias”, para realçar a opinião dos pais.

Numa segunda sequência, o médico faz algumas perguntas ao menino, mas, quando o menino está prestes a declamar um dos seus poemas, este acaba por lhe dizer que não pode perder tempo com coisas insignificantes: “ Não tenho tempo para isto, moço, isto aqui não é uma clínica psiquiátrica''. Porém a mãe do menino insiste e o doutor acaba por ficar com o seu caderno de versos.

Já na sequência final, o menino acaba por ser internado, quando, na semana seguinte, regressa àquele hospital, mas não por estar doente, e sim pela sua sabedoria e imaginação. O médico apenas queria ouvir o que ia no coração da criança. “Hoje quem visita o consultório raramente encontra o médico. Manhãs e tardes ele se senta num recanto do quarto de internamento do menino. Quem passa pode escutar a voz pausada do filho do mecânico que vai lendo, verso a verso, o seu próprio coração.”

Narrador

O narrador deste conto é heterodiegético, isto é, é uma entidade exterior à história, que tem uma função meramente narrativa e que apenas relata os acontecimentos.

Apenas se limita a contar história, sem participar nela: “ A mãe, em desespero, pediu clemência”, “O médico chamou a mãe, à parte”

Quanto ao conhecimento, o narrador é omnisciente. Sabe de tudo o que acontece em todos os momentos e em todos os lugares. Traduz tudo o que as personagens pensam e sentem e também o que fazem ou falam: “ O doutor suspendeu a escrita, A resposta, sem dúvida, o surpreendera”

Espaço

A acção, em termos de espaço físico, situa-se numa clínica, como se pode verificar na seguinte passagem: “E que seria ali mesmo, na sua clínica que o menino seria sujeito a devido tratamento”

O espaço social caracteriza-se pela ignorância por parte dos pais do menino, por pensarem que o seu filho está doente por escrever versos, tal como se pode verificar nos seguintes excertos do conto: “ O pai logo sentenciara: havia que tirar o miúdo da escola. Aquilo era coisa de estudos a mais, perigosos contágios, más companhias. Pois o rapaz, em vez de se lançar no esfrega-refrega com as meninas se acabrunhava nas penumbras e, pior ainda, escrevia versos. O que passava: mariquice intelectual? Ou carburador entupido, avarias dessas que a vida do homem se queda em ponto morto?''

Também, se caracteriza pela indiferença do médico pelo caso do menino. “ Não tenho tempo, moço, isto aqui não é nenhum clínico psiquiátrico.”

É numa clínica que a acção do conto decorre.

Tempo

No que diz respeito ao tempo, o autor não refere a que altura do dia a acção decorre. O tempo histórico é indeterminado.

Porém, alguns excertos do conto, tais como “ Manhãs e tardes ele se senta num recanto do quarto de internamento do menino” dá-nos o conhecimento de que o médico ia visitar o menino durante a parte da manhã e da tarde.

Personagens

Quanto às personagens deste conto, existem três personagens principais e uma secundária: o médico, a mãe do menino e o menino (personagens principais) e o pai do menino (personagem secundária).

O menino era muito sonhador, mas, ao mesmo tempo, maturo. Tinha muita imaginação e um dom para a escrita. Esses seus traços percebem-se na forma de como ele encara a vida, sonhando e na sabedoria presente nas respostas dadas ao médico tais como: “Dói-me a vida, doutor”.

O médico, por sua vez, era uma pessoa impaciente, mas, ao mesmo tempo, sensível.

Quando o menino ia começar a declamar um dos seus versos, o médico disse-lhe que não tinha tempo para o aturar. Porém, é ele quem passa uma ordem médica para o menino ficar internado, mesmo sem razão, pois, na verdade, o menino não estava doente. Ele apenas queria ouvir e saber o que ia no coração do menino. “O médico chamou a mãe, à parte. Que aquilo era mais grave do que se poderia pensar. O menino carecia de internamento urgente.”Que ele mesmo assumiria as despesas. E que seria ali mesmo, na sua clínica que o menino seria sujeito a devido tratamento. “

A mãe do menino, a Dona Serafina, era uma pessoa sem conhecimento, ignorante, mas ao mesmo tempo preocupada. O que fazia dela ignorante é o facto de pensar que o seu filho estivesse doente apenas por escrever versos. Contudo, era uma mãe muito preocupada com o filho, pois assim que descobriu que ele escrevia, levou-o logo ao médico, com a esperança que houvesse uma cura para a doença de seu filho. “A mãe, em desespero, pediu clemência. O doutor que desse ao menos uma vista de olhos pelo caderninho dos versos. A ver se ali catava o motivo de tão grave distúrbio.”

Já o pai do menino era um mecânico, que apenas sabia interpretar motores, e nunca soube ser romântico para a sua mulher, Dona Serafina. O melhor elogio que ele lhe conseguiu dar foi dizer-lhe que ela cheirava a óleo Castrol. Partilhava da mesma opinião que a sua esposa relativamente ao filho:” o menino tinha algum distúrbio por escrever versos.” O pai logo sentenciara: havia que tirar o miúdo da escola. Aquilo era coisa de estudos a mais, perigosos contágios, más companhias. Pois o rapaz, em vez de se lançar no esfrega-refrega com as meninas se acabrunhava nas penumbras e, pior ainda, escrevia versos. O que se passava: mariquice intelectual? Ou carburador entupido, avarias dessas que a vida do homem se queda em ponto morto?”

Trabalho realizado por Joana Veríssimo, 10º7 nº17

1 comentários:

Anónimo disse...

Obrigada pela ajuda que me deste , thanks (: